EAP. Estágio de Aperfeiçoamento de Praças. Anualmente, sempre era realizado na própria sede onde o militar está trabalhando. Contudo, a partir deste ano, começou a ser feito de forma centralizada na ESB – Escola Supeior de Bombeiros – a famosa escola de bombeiros na cidade de Franco da Rocha. Ou também inferno, como eu carinhosamente a chamo.
Quando saí daqui (é, redijo estas diretamente de lá) estava abatido, porém fisicamente forte, mentalmente preparado e emocionalmente arrasado. Havia realizado meu maior sonho até então – finalmente era bombeiro, havia alcançado o patamar daqueles que um dia, num passado remoto, salvaram a vida da minha mãe. Contudo, saía do centro de formação sem o alento de outra mulher que fora muito importante em minha vida. Havia perdido (talvez merecidamente, enfim) aquela que foi capaz de me direcionar, incentivar e amparar nesta árdua escalada.
Foi muito estranho cruzar aqueles portões novamente. Ter flashbacks tênues de outrora, quando estava também ali, mas de outra forma. Reparar no que mudou, no que não mudou e no que mudou apenas por questão de ponto de vista.
Andar por este lugar novamente era como pisar em cacos de vidro numa estrada escura. Sentí-los estilhaçando sob sua bota sabendo que não podem ferí-lo, mas que ainda assim, de alguma forma, o atingem. Saber que embora hoje você esteja virtualmente imune, num outro tempo você já sofreu ao passar por ali descalço.
Mais estranho ainda foi ter o clima ameno e agradável. De certo, não me lembro de um dia de sol e céu azul enquanto estive aqui pela primeira vez. Apenas chuva, frio e “teto baixo”. Em contraste ao clima frio que tinha na memória, a realidade se fez, além do clima primaveril, na calorosa recepção e abraço dos antigos colegas coincidentemente por ali também – inclusive da figura caricata do sargento do meu pelotão, que disse “até hoje me lembram da música daquele nosso pelotão!”
De todas as impressões, a mais forte e vívida foi, sem dúvida, o cheiro. Algo como concreto e granito molhado, acentuado em alguns pontos por metal na mesma situação. A luz fria dos corredores altos, o som dos ecos de passos vindos de algum lugar, as portas pretas de correr, a amurada baixa dos andares superiores, os telefones públicos – em especial aquele no qual ouvi a voz dela carregada com alguma ira e indiferença.
Folgo em ver que as coisas melhoraram muito desde então, em se falando de infra-estrutura e conforto. Realmente, merece (talvez agora) o título de uma das melhores escolas de bombeiros do mundo (se não “a”). As salas de aula se mostraram num outro nível, as áreas de atletismo e vivência comum, também.
Depois de um dia de instrução, antes do jantar, resolvi fazer algumas voltas na pista. Não gosto de correr, mas se faz necessário, de uma forma ou de outra. Local onde 12 minutos pareciam 7 anos e meio. O som do pedrisco sob o mesmo par de tênis, a visão peculiar de cada reta e curva. Tudo cada vez mais vivaz e colorido, como uma pintura sendo restaurada.
Menciono com ênfase a grande vilã da história, a afamada piscina olímpica, local onde pagávamos nossos pecados de nossas próximas três vidas. Após a corridinha, resolvi ignorar o vento lateral e nadar um pouco. E qual foi minha surpresa ao ver que a água estava incrivelmente agradável. Não gosto de nadar, fato, mas sem a opressão, o frio, a pressão e tudo mais, a piscina se tornou um outro lugar.
Na volta, passeando pelo prédio, reencontrei meu antigo alojamento com a referida cama no mesmo lugar (fácil de lembrar, a placa de identificação era número 666-alguma coisa). Contudo, visava um outro lugar em especial. Galguei os quase 80 degraus, rumo ao topo do prédio de alojamentos. Queria novamente alcançar aquele local isolado na cobertura, um certo bloco de concreto no canto do oposto à provisória área onde os recrutas treinavam nós. Aquele local onde, longe das luzes e da presença de qualquer um, sentei e chorei copiosamente por sua ausência. Lembro que a humidade do ambiente era tanta que os pingos não foram absorvidos pelo piso de concreto cru. Lembro que não havia som algum, mesmo o vento presente estava calado. E lembro também que não sei ao certo quanto tempo passei ali, mas que não me levantei enquanto não consegui sentir que a pressão no meu peito se aliviara.
Contudo, ao fim do último lance de escadas havia agora uma grade que impedia o acesso ao topo. É, algumas coisas mudaram desde então. Ou ainda talvez fosse melhor realmente eu não atingir tal sítio.
Até o final da semana as coisas correram de forma amena e agradável. As brincadeiras e zoeiras, como eram de se esperar, só progrediram ao ponto de colocar creme de barbear na bota do outro se tornar uma operação de guerra. É, realmente é legal ser bombeiro, e mais ainda estar entre os seus pares.
Já de volta, inevitável pensar em como o tempo passa – ou em outros momentos custa a passar. Powxa, lá se vão quatro anos.
E ainda dói lembrar de algumas coisas.
Ps. Só pra constar, o número de patrimônio da minha cama desta vez, fato que só vim a constatar quando vinha embora:

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