Sabe, tem horas que me sinto como um soldado que sobreviveu a uma chuva de morteiros em plena praia de Omaha. Feliz por estar vivo, por ter resistido, mas arrasado ao olhar em volta.
Essa cidade me assombra. Não há como passar pelas suas parcas ruas sem ser atacado por lembranças. Lembranças boas (em sua grande parte), mas que dóem e se tornam cruéis. Constantemente me vejo encurralado, tendo que optar entre ficar em casa ou sair e enfrentar meus fantasmas. Lugares em que estive com meus amigos, lugares em que ri e brinquei, lugares em pelos quais passava todos os dias, lugares em que ia com Ela.
Hoje estava de folga. Dei um trato na moto e mais à tardinha saí pra andar. Estava muito calor e eu com dor de cabeça. Passei o dia todo dentro do quarto.
No caminho, resolvi passar pela rua em que ela morava. Coincidentemente, seu pai estava lá na frente e eu parei pra dar um alô. Imaginei que ela estivesse em São Paulo, com todo mundo, como era comum todos os anos. Ele me disse que todos estavam ali, em uma festa na casa do vizinho. Inicialmente fiquei contente, mas logo esse sentimento mudou radicalmente. Estavam todos ali. E nenhum deles me ligou, nem ela, nem a mãe, ninguém. Não foi difícil concluir que simplesmente não era para eu saber. Que não era da minha conta. Lugar errado, hora errada. Só isso.
O pai dela insistiu para que eu ficasse, ou que fosse até a festa, mas educadamente eu recusei. Tentou me fazer combinar de voltar algum outro dia, mas também foi infrutífero. Creio que ele percebeu o que eu pensei.
Só não quis atrapalhar. Afinal, minha presença já não é mais nada de relevante mesmo. Sequer sei se tenho o direito de me sentir triste por isso.
Voltei pra casa. No caminho, em uma avenida, parei por alguns segundos e, em seguida, optei por tomar o caminho da rodovia ao invés de ir para casa. Foi então que eu liguei o “foda-se”. (continua)
