(continuação do capítulo 12)
Sei que apenas fui em direção à rodovia. Peguei a primeira saída no trevo e fui em frente. O tanque estava quase cheio, o ar estava frio, e sim, eu vi a tempestade. A luz do dia ia diminuindo rápido enquanto eu me aproximava dela. A viseira do capacete recebeu as primeiras gotas, senti o mesmo nas minhas pernas e braços. Frias e afiadas como agulhas voadoras vindas do nada, sempre no mesmo ângulo. Mais à frente, rompi a parede de água.
Acelerei. “Something In Your Mouth” bombava na minha cabeça como se meus ouvidos fossem caixas de som.
A água escorria rapidamente e de forma uniforme pela viseira. Sentia o pneu dianteiro cortando a lâmina d’água, e algumas vezes andando por sobre ela. Continuei acelerando. 120, 140, 160. Os demais carros, prudentes, desviavam do meu caminho antecipadamente. Eu apenas me concentrava em olhar para frente, me manter imóvel e continuar acelerando.
Nem sei por quanto tempo estava fazendo aquilo, mas continuei. E a chuva ficava cada vez mais forte. Me senti como o Tenente Dan desafiando a tempestade. Silenciosamente. apenas o exaustor gritava.
170 km/h. Só conseguia sentir as agulhadas dos pingos da chuva em meus braços e pernas se me concentrasse nelas. Caso contrário a sensação era única. Uma mistura de formigamento com irritação. E frio. Muito frio. Mas nada em se comparado ao inverno desse ano. De fato, jamais senti tanto frio posteriormente àquele junho.
O brilho da rodovia à noite, sob o farol alto, era ainda mais intenso com aquela chuva. Alguns veículos lançavam uma nuvem baixa de respingos para trás, e me perguntei se fazia o mesmo – mas não olhei para ver. De fato, a única coisa que eu ainda reparava era a expressão dos motoristas quando eu passava por eles. 180 km/h.
Perdi a entrada para o retorno. A chuva ficou mais densa. Não tenho certeza, mas creio que as pequenas batidas que eu ouvia eram granizo. Um grande declive à frente. Continuei acelerando e a kw-10 continuou respondendo. Sentia que ela voava baixo. “Se for pra acabar, que não sobre nada”. Pensei.
O ponteiro tencionava alcançar 190, foi quando senti que a dor estava diminuindo. Olhando simultaneamente pelo retrovisor e à frente, percebi que havia passado pela tempestade. Foi quando eu pensei se meu celular ainda estava funcionando e se minha carteira ainda estava seca. A chuva ainda caía, mas bem mais leve do que alguns kilômetros atrás. Fiz o retorno logo à frente e, novamente, me vi de cara com a tempestade.
Não tinha percebido na vinda, mas agora o vento estava muito forte. Por mais que eu tentava me manter centrado na via, ele me empurrava para o acostamento. A chuva vinha de lado, ainda mais forte do que antes. Usei alguns caminhões como anteparo para me estabilizar, e novamente alcancei a marca de 180 km/h.
Estranhamente, a volta pareceu bem mais rápida. Vai ver porque a chuva se deslocava em sentido contrário, ou qualquer outra coisa assim. Quando percebi, a pista já estava seca e já não haviam mais gotas na viseira. A luz que indica reserva de combustível acendeu.
Minha roupa não pingava quando cheguei em casa. Retirei os itens dos bolsos e vi que estavam bem. Deixei tudo na área de serviço e fui tomar banho. A mesma sensação, só que suave e quente.
Não parei muito para pensar no que tinha feito, nem porque estava fazendo, mas funcionou bem. Dormi bastante naquela noite.
E minha dor de cabeça passou.





- O bus acaba de sair da rodoviária e um fiscal pede carona – e olha que coisa! Ele ia pro mesmo lugar que eu! (my luck 1 x 0 zica).
noite), já tava vendo que não ia ter bus na rodô, afinal já tava tarde. Pra variar o motorista não era muito de dar informação ou era meio chato mesmo. Acontece que tinha um policial no ônibus que puxou conversa e falou: faz o seguinte, não entra na cidade, pára no pedágio e pega uma carona. Pensei comigo, nunca peguei carona, comofaz? Claro, não perguntei. Desci no pedágio (my luck preparou, chutou).




